Reciclagem

O enigma do vidro: por que o material mais reciclável é o menos reaproveitado no Brasil?

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Apesar de ser 100% reciclável e oferecer benefícios ambientais como a redução na emissão de dióxido de carbono e na extração de matérias-primas, o vidro é o material menos reciclado no Brasil. Estimativas do mercado indicam uma produção anual de cerca de 1,5 milhão de toneladas para embalagens, com menos de 25% sendo reaproveitado, o que resulta em mais de 1 bilhão de garrafas descartadas de forma inadequada por ano. Esses números revelam um desperdício significativo, mesmo com o potencial infinito de reciclagem do material.

Os principais obstáculos incluem o baixo valor de mercado do vidro reciclado, a fragilidade da coleta seletiva, os altos custos de transporte e a dupla tributação sobre produtos reciclados. Juliana Schunck, diretora da Massfix, destaca que muitas indústrias optam por matéria-prima virgem, o que eleva o custo ambiental e enfraquece a economia circular. Nas cooperativas, o desafio é ainda maior: o quilo de vidro vale no máximo R$ 0,30, contra mais de R$ 7 para o alumínio, além dos riscos de acidentes no manuseio, como aponta o consultor Moisés Leão Gil.

Soluções emergentes envolvem a venda direta para a indústria, sem intermediários, o que triplicou o valor por quilo no Rio de Janeiro. Eventos como o show de Madonna e o festival Tim Music mobilizaram catadores para coletar toneladas de vidro a preços justos. Para fortalecer a cadeia, Gil enfatiza a necessidade de infraestrutura, equipamentos de segurança e apoio financeiro, com investimentos que podem chegar a R$ 1 milhão por cooperativa. Editais como o do programa federal Cataforte são aguardados para impulsionar o setor.

Clineu Alvarenga, presidente do Instituto Nacional da Reciclagem, defende a revisão urgente da tributação para incentivar o reaproveitamento, especialmente após a pandemia, que aumentou custos e reduziu preços. O decreto 11.300/2022, que regulamenta a logística reversa para vidro, estabelece meta de 40% de reaproveitamento até 2032, com empresas investindo em novos fornos no Sul e Sudeste. O caminho exige vontade política, incentivos fiscais e valorização dos trabalhadores da reciclagem.

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