Um novo relatório de especialistas alerta que os plásticos representam um “perigo grave, crescente e subestimado” para a saúde humana e planetária, configurando uma verdadeira “crise dos plásticos”. Publicado na revista médica The Lancet, o documento destaca que essa crise causa doenças e mortes desde a infância até a velhice, com danos anuais relacionados à saúde estimados em pelo menos US$ 1,5 trilhão. O principal impulsionador é o aumento acelerado na produção de plásticos, que cresceu mais de 200 vezes desde 1950 e deve quase triplicar para mais de um bilhão de toneladas por ano até 2060, com ênfase em itens de uso único, como garrafas e embalagens de fast-food.
A poluição plástica já atinge 8 bilhões de toneladas em todo o planeta, do topo do Monte Everest às fossas oceânicas mais profundas, com menos de 10% sendo reciclado. O relatório enfatiza que os plásticos ameaçam em todas as etapas, desde a extração de combustíveis fósseis – que respondem por mais de 98% da matéria-prima – até a produção, uso e descarte, gerando poluição do ar, exposição a químicos tóxicos e infiltração de microplásticos no corpo humano. A produção emite o equivalente a 2 bilhões de toneladas de CO2 por ano, superando as emissões da Rússia, e mais da metade dos resíduos plásticos não gerenciados é queimada ao ar livre, agravando a poluição atmosférica.
Os impactos à saúde são particularmente graves em populações vulneráveis, como fetos, bebês e crianças, com associações a riscos de aborto espontâneo, nascimentos prematuros, defeitos congênitos, câncer infantil e problemas de fertilidade. Microplásticos e nanoplásticos foram encontrados em sangue, cérebros, leite materno, placentas e outros tecidos, com ligações preliminares a derrames e ataques cardíacos, embora os efeitos completos ainda sejam desconhecidos. O relatório, liderado pelo professor Philip Landrigan, do Boston College, foi divulgado antes da rodada final de negociações para um tratado global vinculante sobre plásticos, marcado por divisões entre países que defendem um teto na produção e petrostados como a Arábia Saudita, que se opõem.
Especialistas argumentam que focar apenas na reciclagem não resolve a crise, pois plásticos complexos quimicamente não são facilmente recicláveis, ao contrário de materiais como papel e metal. Com mais de 16 mil químicos usados em plásticos, muitos ligados a efeitos nocivos, o documento clama por transparência e medidas protetivas no tratado. A análise inicia uma série de relatórios para subsidiar políticas, com custos de saúde de apenas três químicos plásticos estimados em US$ 1,5 trilhão anuais em 38 países.
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