Meio Ambiente

O paraíso ecológico acidental na fronteira entre as Coreias

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Do alto de uma pequena montanha, Kim Seung-ho, diretor do Instituto de Pesquisa Ecológica da DMZ, contempla uma vasta extensão de campos de arroz dourados pelo outono, com grãos maduros balançando ao vento. Ao fundo, a Coreia do Norte se estende além do horizonte. “É tão pacífico”, diz ele. “Lá, costumava ser um campo de artilharia, mas desde que pararam de atirar, a natureza se tornou tão bonita.” Essa é a zona desmilitarizada (DMZ), uma faixa de terra que atravessa a península coreana, dividindo Norte e Sul ao longo do paralelo 38 norte. Criada após a Guerra da Coreia (1950-1953), que terminou em armistício, a DMZ é um buffer fortificado, com 250 km de extensão e 4 km de largura, repleto de minas terrestres e instalações militares.

Apesar de ser uma das fronteiras mais militarizadas do mundo, a DMZ se transformou em um paraíso ecológico involuntário nos últimos 72 anos. O Instituto Nacional de Ecologia da Coreia do Sul registrou quase 6 mil espécies na área, incluindo mais de 100 ameaçadas de extinção, representando mais de um terço da vida selvagem ameaçada no país. Os terrenos variados abrigam habitats distintos: pântanos no oeste protegem grous migratórios, enquanto montanhas no leste servem de refúgio para mamíferos como o cervo-almiscarado siberiano e ursos-negros asiáticos. Kim e sua equipe de voluntários documentam essa biodiversidade há duas décadas, monitorando a Zona de Controle Civil (CCZ), área restrita adjacente à DMZ. “Em climas temperados ao redor do mundo, grandes cidades se desenvolveram”, afirma Kim. “Não há outro lugar onde a natureza tenha sido deixada em paz assim.”

O irony reside no fato de que as minas terrestres, destinadas à destruição, atuam como protetoras da vida selvagem. “Eu pensava que era o melhor ambientalista”, diz Kim, “mas percebi que as minas estão fazendo mais pela conservação do que qualquer um.” A equipe mapeia avistamentos e constrói bancos de dados detalhados, superando até registros oficiais. No entanto, a pesquisa enfrenta desafios: a DMZ é inacessível a civis, e a CCZ exige autorizações militares. Tensões políticas, como explosões recentes de estradas pela Coreia do Norte, interrompem o trabalho. Kim teme que tanto a guerra quanto a paz ameacem o ecossistema, com possíveis desenvolvimentos pós-acordo de paz.

Ele defende que a geração atual não decida o destino da DMZ, deixando-o para quem valorize a biodiversidade. Observando grous migratórios, Kim vê potencial para unir as nações por meio da conservação compartilhada. “Aqui, guerra e paz, vida e morte coexistem”, reflete ele. “A natureza não discrimina nacionalidade ou ideologia, criando harmonia a partir de elementos trágicos.”

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