Meio Ambiente

Bacia hidrográfica no Nordeste perde 42% de seus corpos d’água em 30 anos, alerta estudo

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Um estudo da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) revelou que a Bacia Hidrográfica do Rio Piancó-Piranhas-Açu, no Nordeste brasileiro, sofreu uma redução de 42% em seus corpos d’água entre 1989 e 2019. Essa mudança representou a alteração mais significativa no uso da terra na região durante o período analisado, resultando em uma queda de 24% no valor econômico dos serviços ecossistêmicos, equivalente a mais de US$ 460 milhões (cerca de R$ 2,5 bilhões no câmbio atual). Os resultados foram publicados na Revista Brasileira de Engenharia Agrícola e Ambiental e destacam os impactos combinados de secas prolongadas, como a ocorrida entre 2012 e 2017, transformações no uso do solo que intensificam o transporte de sedimentos e a falta de Áreas de Preservação Permanente (APPs), agravando o assoreamento de rios e reservatórios.

Os pesquisadores, incluindo Izabele Gusmão, uma das autoras, utilizaram imagens de satélite Landsat processadas no software QGIS para mapear as mudanças na cobertura da terra, como áreas de Caatinga, solo exposto, corpos d’água e expansões urbanas. Em seguida, aplicaram técnicas de valoração econômica internacional para estimar o impacto nos serviços ecossistêmicos, que caíram de aproximadamente US$ 1,97 bilhão em 1989 para US$ 1,51 bilhão em 2019. A perda de áreas de água foi o fator principal, pois concentram o maior valor por hectare, afetando serviços como a regulação do clima e das chuvas, a manutenção da fertilidade do solo, o fornecimento de água e a produção de alimentos. Embora a vegetação nativa da Caatinga tenha diminuído pouco — 3% na lenhosa e 2% na herbáceo-arbustiva —, o impacto econômico foi desproporcional, com expansão de áreas urbanas e solo exposto contribuindo para desequilíbrios como erosão e redução na recarga de aquíferos.

A escassez hídrica compromete usos essenciais da água na bacia, como irrigação (64,8%), aquicultura (24%), consumo humano (8%) e pecuária (1,7%), ameaçando a produção agrícola e o abastecimento populacional. O estudo identificou 17 tipos de serviços ecossistêmicos prestados pela região, incluindo regulação climática, provisão de água, fibras, madeira e funções culturais como lazer e estética da paisagem. A Caatinga se mostrou estratégica ao prover 16 desses serviços mesmo em condições de seca, mas permanece negligenciada em agendas políticas. Os autores enfatizam a necessidade de políticas públicas para restauração de áreas degradadas e gestão integrada de terra e água, a fim de mitigar danos e preservar a segurança hídrica e alimentar no semiárido.

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