Notícia

Recuperação energética: solução ignorada contra o passivo dos aterros

166
Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Impactos invisíveis
No Brasil, os aterros sanitários ainda são tratados como solução central para os resíduos urbanos, mesmo diante de seus custos ambientais e sociais. Estudos revelam que até 70% do metano gerado nesses locais não é captado, apesar de sistemas modernos de biogás. Esse dado, confirmado por medições de satélite, mostra o peso desse poluente que, em 20 anos, tem efeito 86 vezes mais danoso ao clima do que o CO₂. Além disso, os aterros produzem chorume, contaminam lençóis freáticos e ampliam riscos à saúde.

Benefícios do WtE
A recuperação energética de resíduos (Waste-to-Energy – WtE) surge como alternativa eficaz e já consolidada em países desenvolvidos. Usinas modernas reduzem até 8,4 vezes as emissões de gases de efeito estufa em relação a aterros. Se implantadas em 28 regiões metropolitanas brasileiras, evitariam 51 milhões de toneladas de CO₂ equivalente por ano, o que corresponderia ao plantio de 7 bilhões de árvores. A tecnologia ainda permite a recuperação de metais e a geração de energia limpa a partir de resíduos que, de outra forma, seriam passivos ambientais.

Mitos e custos
Um dos principais ataques à WtE é o suposto custo elevado da energia gerada. Porém, análises isoladas do preço do megawatt ignoram os custos evitados com aterros: danos ambientais, tratamento de passivos, emissões de metano e riscos à saúde pública. Estudos indicam que a tarifa de energia teria acréscimo mínimo de 0,06% para viabilizar esses projetos. Em contrapartida, bilhões de reais continuam sendo gastos no manejo de aterros e na correção dos impactos que eles provocam.

Urgência brasileira
A União Europeia e outros países já restringem ou banem aterros desde a década de 1990, demonstrando que tratá-los como solução final é ineficaz e obsoleto. No Brasil, a lentidão em adotar usinas WtE mantém o país refém de um modelo poluente e ultrapassado. A tecnologia, longe de competir com a reciclagem, é complementar, gerando empregos, energia renovável e fortalecendo a economia circular. Ignorar esse caminho é perpetuar uma gestão de resíduos que não apenas polui, mas agrava a crise climática e sanitária.

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Relacionadas

Notícia

Agricultura quilombola impulsiona sustentabilidade ambiental no Brasil

Em meio aos desafios climáticos globais, comunidades quilombolas brasileiras destacam-se por práticas...

Notícia

Mudanças climáticas agravam desigualdade social no mundo

Em um relatório divulgado pela ONU nesta semana, as mudanças climáticas estão...

Notícia

Tendências de consumo sustentável ganham força globalmente em 2026

Em 2026, o consumo sustentável registra um crescimento acelerado, impulsionado por regulamentações...

Notícia

Mobilização popular contra desmatamento ganha força no Brasil

São Paulo e Brasília, 06/04/2026 – Milhares de brasileiros tomaram as ruas...