As chuvas intensas que atingiram o Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024 provocaram o maior evento de deslizamentos de terra já registrado no Brasil, conforme estudo publicado na revista Landslides. Coordenada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), com participação de instituições como o Instituto Federal de Goiás (IFG) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), a pesquisa mapeou 15.376 deslizamentos e identificou 16.862 pontos de início desses eventos, distribuídos em cerca de 18 mil quilômetros quadrados em 150 municípios, o que representa 30% das cidades gaúchas. Além dos deslizamentos, as inundações afetaram 96% dos municípios, impactando quase 2,4 milhões de habitantes, desalojando mais de 600 mil pessoas e causando 182 mortes.
Para superar a falta de inventários padronizados de deslizamentos no país, a equipe analisou 474 imagens de satélite de alta resolução captadas entre 4 de maio e 31 de agosto de 2024. De acordo com Clódis de Oliveira Andrades-Filho, professor do Instituto de Geociências da UFRGS e autor do estudo, a magnitude do evento está ligada ao acumulado extraordinário de chuvas, concentrado em encostas íngremes voltadas para norte, norte-nordeste e noroeste-norte. Essas áreas apresentam cobertura vegetal mais esparsa e maior pressão humana, como desmatamento e construções, o que reduz a estabilidade do terreno e explica a concentração dos deslizamentos.
O estudo também registrou 2.430 trechos de estradas afetados, levando ao isolamento de comunidades e perdas humanas e materiais. Os resultados podem embasar políticas preventivas, mapas de risco e estratégias de recuperação, além de apoiar a capacitação de profissionais em gestão de desastres e o uso de tecnologias como inteligência artificial para monitoramento. Andrades-Filho enfatiza a importância de ações como comunicação de riscos adaptada a comunidades rurais e planejamento de rotas de fuga para mitigar impactos em eventos extremos futuros.
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